Do Cairo a Alexandria!

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Mar de Alexandria com vista pra cidade

Olá viajantes, tudo bom? Como eu havia dito no meu primeiro post, eu fiz um mochilão insano pelo Egito, e você pode conferir o começo dessa minha viagem nesse link aqui. Depois do “roof top”, parecia que nada mais ia ter graça. Mas eu estava terminantemente enganada! Na semana seguinte, fomos nada mais nada menos do que pra ALEXANDRIA.

Sim! Não consigo descrever a felicidade em ver aquela van super velhinha estacionada na frente do meu – até então não tão amado assim – hostel. Iriamos apenas eu e o pessoal da organização egípcia, e nós estávamos tão apegados a eles que parecíamos uma família! Colocamos uma playlist maravilhosa, com músicas brasileiras e egípcias, e fomos cantando aos berros do Cairo até Alexandria (a viagem dura, aproximadamente, duas horas e meia).

É muito comum as pessoas terem casas de verão em Alexandria. E quando digo casas, estou sendo bem modesta. Na verdade são praticamente mansões, eles investem mesmo! Isso porque, é costume que, no final do Ramadã, as famílias viajem para comemorar. Pra quem não sabe, é uma prática muçulmana, que acontece durante o verão, em que eles ficam aproximadamente um mês (depende do calendário lunar, as vezes são 29 dias, as vezes 32) das 4 da manhã às 7 da noite sem comer ou beber.

Era muito interessante, porque lá pelas quatro, os egípcios perguntavam o que nós queríamos comer, pra ligarem nos restaurantes e já deixarem encomendado. Quando chegávamos (umas 18:30), o restaurante já estava lotado, e todas as pessoas tinham uma garrafa gelada de água na frente ou de suco de hibisco (bem comum por lá). Exatamente às 19:00, se iniciava uma reza por toda a cidade (não só em Alexandria, mas no país todo), e o pessoal atacava a garrafa como se ela fosse fugir. No primeiro dia, devo dizer que me assustei.

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Vista interna das ruínas do castelo de recepção

Descemos do carro e fomos direto para o castelo de recepção. Ele era utilizado nos tempos de outrora (tô falando chique) pra receber os visitantes do reino, mas também para atacar quem os ameaçasse. Isso porque era a única porta de entrada do lugar (na verdade, existem dois castelos, mas um deles está desativado, portanto não pode receber visitas. Porém, este outro castelo era mal localizado, e muito mais difícil de ser alcançado pelo mar do que o outro).

Visitamos as ruínas do castelo, e a vista pro mar é incrível! Pra que a estrutura não fosse danificada pela força das ondas, eles colocaram blocos imensos de pedra ao redor de todo o castelo, e as pessoas aproveitam pra se sentar e pescar. Lá dentro, tem um buraco enorme no segundo andar, que eles utilizavam pra jogar óleo quente nos invasores. Assim, a probabilidade deles conseguirem subir pro segundo andar e conquistarem o castelo é bem menor.

Informações históricas à parte, gente do céu, que lugar incrível! Me encanta pensar que pessoas deram a vida construindo aquilo, e eu tive a oportunidade de entrar e deixar uma parte bem pequenininha minha com eles.

Depois do castelo, entramos de novo no carro e fomos para o centro, andar em um barquinho. Na verdade, não deu muito certo porque ele não conseguiu nem tirar a gente do lugar, já que o mar estava muito agitado. No caminho pra lá, perguntaram o que queríamos comer.

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Sanduíche de Falafel

Isso já era 16h, e nem café da manhã havíamos tomado! O problema é que eles esqueciam que nós tínhamos que comer, porque já estavam tão habituados com o ritmo do Ramadã que não pensavam muito sobre comida. Logo no primeiro dia, minha colega portuguesa já estava super mal-humorada (uma dica de sobrevivência: nunca deixe um português com fome. Eles sugam toda a felicidade que tem no seu corpo e no ambiente, até ganharem comida).

 

Compraram pra gente uma comida típica chamada foul. É uma pasta de feijão triturado, com vários tipos de tempero, e pode ou não ser servido com pão sírio (geralmente é, e eles vendem em forma de sanduíche, é maravilhoso!) Também compraram falafel, um hambúrguer de grão de bico com limão, geralmente servido como sanduíche. Comemos na beira do mar, sentados na mureta que separava o mar e a rua. A portuguesa estava muito estressada, eu juro que achei que ela ia jogar a comida em mim. Mas depois que ela comeu, parecia um gatinho fofo querendo carinho (é por isso que eu te amo, miga).

Claro que não podia faltar a biblioteca de Alexandria! Imaginem um lugar com isolamento acústico, todos os tipos de livros que você quiser. São 7 andares desenvolvidos para que do último seja possível ver quem estava no primeiro, e há aparelhos de última tecnologia espalhados por todo o lugar. Era assim a biblioteca. Logo na entrada, tem um aparelho que te permite abrir uma múmia e ver todas as fases da mumificação. É muito real! Um guia especializado nos acompanhou em toda a visita, e eu te digo: faz toda a diferença.

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Biblioteca de Alexandria do lado de dentro

Do lado de dentro, há cerca de cinco museus espalhados, alguns pagos, outros não. Do lado de fora, hieroglifos fixados nas pedras que compõe a fachada e estacionados que iam até onde a visão pudesse alcançar. Pessoas de todas as partes do mundo perambulando pelos corredores. Um dos maiores acervos de livros do mundo. Era uma magia incrível. Aliás, quase todos os livros da biblioteca foram digitalizados e estão disponíveis no site. Vale pra quem quiser conferir!

Finalmente, fomos pra nossa hospedagem ! Na verdade, ficamos na casa de verão de uma das egípcias, a Yara. Primeira coisa boa: não precisamos pagar hostel. Segunda coisa boa: tínhamos uma praia particular, e tomamos banho de mar no Mar Branco. Entramos na água gritando e berrando que nunca mais, na vida, iríamos ter aquela sensação. Talvez eu volte a tomar banho no Mar Branco, mas posso garantir que meu coração não vai ficar acelerado daquela forma. Da praia, podíamos ver a famosa ponte de Alexandria, presente em muitos cartões postais. Agora, imagine tudo isso ao por do sol. Ficou sem palavras? Eu também.

Depois de banho tomado e um sono merecido, fomos andar pela cidade. Já era noite, e assim como no Cairo, Alexandria também ganhava vida. A cidade parecia brasileira, não fosse pelas mulheres andando com os cabelos cobertos. Era muito tranquilo e acolhedor, e o clima de praia me preenche, então sou suspeita pra falar que me sentia praticamente em casa. Ficamos em uma espécie de bar (não exatamente um bar, porque não vendem cervejas.

Lá no Egito, é terminantemente proibido beber nas ruas, e também não é permitido pela religião. Portanto, lá quem bebe é um pouco mal visto. Em todas as lojas em que compramos bebidas alcoólicas, saímos com sacolas pretas, pra que ninguém na rua visse o conteúdo), e fumamos bastante narguilé. Lá, é conhecido como shisha, e é uma pratica muito comum. Todo bom lugar tem pelo menos um shisha pra agradar seus fregueses – e nem precisa ser tão bom assim, diga-se de passagem.

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Nascer do sol da praia do Mar Branco

Ficamos lá por três dias e duas noites, e por mais que a cidade fosse incrivelmente incrível, devo dizer que as partes que mais me alegravam eram essas reuniões à noite. No primeiro dia, o Adham, um dos egípcios, ficou tocando violão em uma espécie de lual. Gente, ele tocava Ana Carolina e cantava junto. Tem como não gostar de uma pessoa dessas? Bom, se tem, eu ainda não descobri esse jeito. Depois de horas cantando e dando risada com todos eles, fomos para a praia ver o sol nascer. Bom, eu e a natureza temos uma relação muito forte. Pode parecer clichê, mas ali, eu me senti infinita.

Voltamos para o Cairo, e eu já estava sentindo uma falta enorme de Alexandria. Pelo menos lá era fresco, por conta da brisa do mar. Voltei pra amada capital, com no mínimo 38 graus e sem ar condicionado. Se não tivesse chuveiro gelado, talvez eu não tivesse voltado viva pro Brasil. O bom era que o pessoal ia pro hostel todas as noites, então conversávamos muito (até ensinei um deles a falar palavrão hahahaha) e dávamos risadas o tempo todo. Esses dias com a organização ficarão comigo até a minha morte. Poético, não? Porém completamente verídico.

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Fachada da Biblioteca de Alexandria

Em um desses dias de conversa, perguntei qual era o real significado do Ramadã para eles. Eles me explicaram que, em primeiro lugar, era pela purificação do corpo. Segundo, porque na maior parte dos países árabes existe muita pobreza. Então, este tempo remete a eles como se sente uma pessoa pobre que não tem o que comer não só no Ramadã, mas todos os dias. Refleti muito sobre isso e resolvi tentar.

Fiquei um dia sem comer ou beber, e foi uma experiência gratificante. Não que eu tenha feito pelas razões religiosas, que são muitas, e não valem a pena ser citadas por mim, porque realmente não acredito nelas. Fiz por eles, porque se tornaram tão especiais pra mim, que resolvi mergulhar por completo em sua cultura. Acho que é uma coisa que todos deveriam fazer, pelo menos uma vez na vida. Prometo que vale a pena. Um deles ficou tão feliz com a minha ação, que me deu um pano de decoração do Ramadã. Está pregado na parede do meu quarto, e não tiro ele de lá por nada.

Bom gente, esse foi o segundo capítulo da minha viagem e espero que tenham gostado! Conto mais aventuras e besteiras na semana que vem. Pra acompanhar mais fotos do Egito, me sigam no Instagram (@heloisemeirelles).

Beijão, até a próxima!

 

 

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