Será que uma das atrações mais interessantes do Senegal é apenas mais uma armadilha para turistas?

Hoje eu estava na dúvida se escreveria sobre as armadilhas para turistas que tenho presenciado na capital do Senegal ou sobre a ilha de Gorée, que visitei no último sábado e onde aprendi sobre a importância da ilha no comércio de escravos ao longo dos séculos.

Ilha de Gorée, Senegal
Vista do alto da ilha de Gorée

Decidi escrever sobre um assunto que acabou na verdade virando o outro. Esse texto era portanto para ser sobre a interessante e ao mesmo tempo chocante visita à ilha de Gorée, à 30 min de balsa de Dakar. Lá supostamente eu aprendi sobre os números, fatos e os absurdos que sofreram os escravos na “Maison des Esclaves” (Casa dos Escravos), um museu e um dos principais destinos turísticos de quem visita Dakar.

Tenho que confessar que raramente contrato um guia para visitar um lugar. Gosto da liberdade de poder explorar por conta própria, gosto também de economizar o dinheiro mas sei que muitas vezes acabo perdido (uma vez quase morri ao escalar um vulcão por causa disso) ou sem um conhecimento mais aprofundado do lugar.

Ao mesmo tempo as vezes que tive um guia para me ensinar a história de algum lugar, nem sempre a experiência foi muito boa ou a informação passada não era lá muito confiável. Dessa vez, como estava em um grupo com outros 3 amigos, decidimos contratar um guia que nos ofereceu para mostrar a ilha por apenas 7000 cfas (por volta de 14 dólares).

A visita começou na Casa dos Escravos e eu fui anotando o que ele contava. Os números de escravos homens que dormiam em tal pequeno cômodo,  de crianças em outro cômodo, das mulheres, o preço de cada criança escrava (equivalente a um pequeno espelho), a forma como os escravos rebeldes eram castigados, etc.

No final da visita, a porta com uma vista linda para o oceano atlântico era o clímax de toda aquela experiência. Talvez a parte da casa mais fotografada e a que mais recebia atenção.

“De 15 à 20 milhões de escravos passaram por essa porta”, disse o guia com a voz sóbria.

Aquela porta representava portanto a conexão entre a África e as Américas, o portal para as mais terríveis experiências que provavelmente seres humanos foram submetidos. Os “dois terços” de escravos sobreviventes à travessia chegavam nas Américas provavelmente arrependidos de terem sobrevividos.

Mas e se toda essa história não passasse de mais uma lorota?

Pesquisando na internet para consolidar os fatos e números recebo um tapa da wikipedia, com seu artigo em inglês com fontes supostamente confiáveis:

“Gorée foi relativamente irrelevante no tráfico de escravos.”

E ainda diz que a conhecida “casa dos escravos” nunca foi um centro de comércio de escravos. “Provavelmente não mais do que algumas centenas deles partiram de lá por ano em direção às Américas. Eles foram transportados mais como passageiros incidentes em navios com o propósito de levar outros tipos de cargas e produtos.”

Outras fontes se divergem mas sobretudo quando se troca o idioma para o Português, se lê que:

“A ilha de Gorée… foi entre os séculos XV e XIX, um dos maiores centros de comércio de escravos do continente, a partir de uma feitoria fundada pelos portugueses”.

Que é quase o contrário do que se diz na versão mais rebuscada e com fontes em inglês. O fato de os próprios números passados pelo nosso guia não fazer sentido ao contrastados com outras fontes na internet me faz desconfiar de que toda a história da ilha e da “Casa dos Escravos” que é visitada por tantos turistas é na verdade uma grande e oficial armadilha de turista. Apenas mais uma para a coleção daqueles que visitam Dakar.

Não estou aqui para negar a brutalidade e a falta de humanidade durante os séculos de escravidão africana. Está mais do que provado o quanto os escravos sofreram e o quanto um ser humano pode sofrer quando um se acha superior ao outro. O pior é pensar que aqueles que defendiam a escravidão, ainda nos últimos séculos, o faziam com livros considerados sagrados em mão, como a Bíblia, justificando  atos horrendos seguindo a “Palavra de Deus”. Outros ainda seguem em outras escalas e em outros contextos repetindo a história.

Todo o tempo gasto de pegar uma balsa, conhecer a ilha, visitar os supostos artistas e suas artes e toda a história contada durante um passeio com o guia me pareceu tudo uma furada. Não sou historiador e não estou aqui para dar um veredito sobre a ilha de Gorée.

Infelizmente, o que me resta é um grande sinal de interrogação. Mas também o aviso de que devemos sempre desconfiar daquilo que aprendemos seja em uma viagem, durante uma visita guiada, um museu ou na própria  internet.

Pensar e questionar é o primeiro e o verdadeiro passo do conhecimento. Quando apenas absorvemos na inércia aquilo que somos ensinados viramos marionetes ou mesmo os novos escravos daqueles que distorcem as informações e detém o poder.

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