Vive le France – E seu jeito único de ver a vida!

– Bom dia, Como vai o senhor? Por favor, gostaria de três baguetes. Obrigado, bom após meio-dia, até a próxima.

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Começo meu texto com um exemplo de tratamento comum que se tem na França em comércios e qualquer outro lugar em que se tenha uma relação cliente-vendedor. É uma coisa de louco para nós brasileiros que estamos acostumados um tratamento mais informal “E ai! Me vê dois pães… Valeu”. Aqui, parece que existe uma fórmula de relacionamento, que TEM que ser seguida. No início, quando eu ainda não estava acostumado com isso, e me esquecia de seguir rigorosamente esses passos, tinha a impressão de que eles eram mais secos, e que queriam que eu fosse logo embora. Com o tempo, fui me acostumando e recebendo mais sorrisos, quanto mais eu seguia o modelo.

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A maneira de saudação é bem parecida que a nossa, porém bem diferente ao mesmo tempo. Para cumprimentar pessoas que vemos chegar podemos dar beijo no rosto, ou apertar as mãos. Nós fazemos isso e ele também, mas aqui, tudo acontece de uma forma diferente: Beijo no rosto pode ser um, dois, três ou QUATRO! – dependendo da região de onde se vem. Às vezes eu vejo pessoas que se encontram e ficam se beijando parecendo que nunca mais vão terminar! Além disso, pode-se começar pela esquerda ou pela direita e, homem com homem, se são amigos há mais tempo, e que já houve certa convivência juntos, também é normal que se cumprimentem assim, com beijinho na bochecha. Eu descobri isso na prática e, quando isso aconteceu eu fiquei bem feliz e até surpreso e assustado quando alguns amigos que conheci há alguns meses vieram desejar bom natal pra mim e ao se despedirem me deram dois beijos na bochecha! Isso foi uma mostra de que já estávamos mais próximos e que a barreira inicial e o gelo, tinham sido quebrados! A mesma coisa aconteceu com um pai de uma amiga minha que fez intercâmbio em São Carlos comigo; ao se despedir, ele o fez com beijos e fiquei feliz porque isso mostrou que eles me viam como amigos da família dela!

Tem também o cumprimento com as mãos, que é mais comum entre homem-homem, de uma maneira mais informal e rápida, como quando nos encontramos na faculdade. Nesses casos, é comum que a gente coloque a mão na posição como a da figura, e em seguida, a gente da dois tapinhas um na mão do outro, sem apertar no final – eu nunca sei o que fazer… as vezes aperto no fim, ou dou dois tapas descompassados, enfim… um dia chego lá!

Outra particularidade é a maneira que tratamos os mais velhos e, mesmo que não tão velhos, um garçom, ou alguém que não conhecemos. Em francês temos o “vous” e o “tu”; o primeiro corresponde a “senhor” e o segundo a “você”. Isso é tão forte, que tem gente que para ofender, usam o “tu” para alguém que se deveria usar o “vous”. Ao mesmo tempo, se eu chamo algum amigo da minha idade de “vous”, isso é muito estranho e engraçado. Para amigos, e senhores, eu já sei bem quando usar cada um, mas se a pessoa tem entre 25 e 35 anos, fica numa zona intermediária que eu não sei o que fazer… na dúvida, uso o “vous” mesmo: antes engraçado e exagerado do que mal educado!

Bom, está dando pra perceber que a educação – não sei se educação ou cordialidade, mas enfim – é um ponto forte aqui na França. Um exemplo na prática que eu dou é: um dia estava com os amigos de sala comendo num gramado, quando alguém jogou um pedaço de terra numa menina… ao invés dela xingar ou mandar parar, o que ela disse foi “isso não foi muito gentil”…. Outra situação: saindo do ônibus, tinha muita gente querendo sair, e a porta ia fechar, ai começou uma mistura de empurra-empurra, misturado com uns “desolés”, “excusez moi”: um empurra o outro, mas a cada encostada, uma desculpa é dada! Isso é muito louco!

Mas existe um fator que faz tudo isso mudar: o álcool.  É admirável a capacidade que eles têm de manter um diálogo com tantos cuidados, agradecimentos e pedidos de desculpas. Ao mesmo tempo em que é bem contrastante um tratamento formal, que se deve ter no dia a dia, chegando numa festa – seja em parques ou em casas – tudo muda. Todos se cumprimentam, educadamente, com quantos beijos quiserem, mas depois de duas singelas latinhas de cerveja, o animal francês é libertado: as pessoas começam a dançar como nunca o fazem normalmente, ficam falantes, as vezes agressivas e chutam lixeiras na rua – já vi vários franceses bêbados chutando lixeiras na rua! Quanto ao barulho, enquanto alguns se incomodam de ouvir o vizinho lavando a louça às 23h, depois de beber, não há pudor em sair gritando nas ruas – nesse caso corre-se o risco de levar um saco com água fervendo lançado por algum vizinho furioso que tenta dormir!

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Bom, aqui eu encerro a primeira mostra que eu tive da cultura da França, e para finalizar, à la francesa: Obrigado pela atenção, bom fim de tarde, até uma próxima, tchau!

 

Filipe ROCHA DE ABREU

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