Dilemas de um intercâmbio depois dos 30

Fazer as malas, comprar as passagens, se despedir dos amigos e deixar a segura e confortável casa dos pais para um intercâmbio em um novo país. Levar as expectativas, anseios e medos de quem tem apenas os seus vinte e poucos anos. Isso eu só imagino, mas não sei como é. O que eu sei mesmo é como encarar um intercâmbio depois dos trinta!

Comemoração dos meus 32 anos no pub Spailpin Fanach, em Cork.

Quando se é um balzaquiano, você já tem uns dez anos de formado ou quase isso, um emprego, talvez um relacionamento sério ou até um filho, contas a pagar. Nessa idade, algumas pessoas até pensam que o tão sonhado intercâmbio ficou lá longe, entre os itens não realizados da lista de desejos dos vinte anos. Comigo foi exatamente assim. Eu tinha 31 anos, um trabalho, um relacionamento de sete anos e uma cadelinha que era meu xodó. Eu estava concluindo o mestrado e pensando em deixar um pouco o jornalismo para apostar na carreira acadêmica. Foi quando uma amiga reavivou o antigo sonho com a seguinte proposta: vamos fazer um intercâmbio juntas?

Desde que concluí a faculdade de jornalismo, eu nutria essa vontade de cair no mundo. Mas, duas coisas me impediam naquela época: a falta de grana e o medo. Embora eu tivesse estagiado durante praticamente os quatro anos de faculdade, nem quebrando o meu porquinho eu teria o suficiente para bancar o intercâmbio. E eu não queria pedir a meus pais. Eu sempre achei que tudo que eu quisesse fazer depois da faculdade já teria que ser por minha conta e não pela conta deles. Além disso, eu tinha um medo quase paralisante de me ver sozinha em cidades que eu não conhecia. Lembro que a primeira vez que fui sozinha a São Paulo foi um parto para eu ter coragem de pegar um ônibus e dar uma voltinha pela Avenida Paulista.

Eu e Mari, minha companheira de aventura na Irlanda.

Bem, aos 31 eu continuava medrosa, mas a companhia da amiga já solucionava essa questão. E a grana eu também tinha! Então, tudo resolvido. Só que não, né? Foi como eu disse, nessa fase a gente já tem mais compromissos, mais amarras, mais raízes fincadas. Se aos vinte a gente só enxerga as possibilidades que se abrem na nossa frente, aos trinta a gente já começa a temer as perdas do que vamos deixando para trás.

Acredito que um dos principais dilemas gira em torno da carreira: pedir demissão e ficar um ano fora do mercado de trabalho. No meu caso esse dilema foi de longe o mais fácil de ser enfrentado. Eu pensei, “bem, o máximo que pode acontecer é eu voltar um ano depois e encontrar um trabalho similar ao que tenho hoje”. E a minha previsão de confirmou. Quando retornei, não encontrei apenas um similar, encontrei a mesma vaga que eu havia deixado. Só que aí, algo mudou. Eu voltei, mas voltei com vontade de fazer outras coisas, de buscar coisas novas. Agradeci a oferta, mas recusei.

O meu maior dilema era mesmo no quesito relacionamento, que era sério e longo. Pra piorar, quando sugeri a ele: vamos juntos? Ele respondeu: não, esse sonho é seu, não meu!

Um brinde à Irlanda!

Enquanto eu ia desenrolando essa história, começamos a investigar possíveis destinos para a nossa viagem e foi aí que apareceu a Irlanda. Eu já havia pensado na Austrália, Nova Zelândia, Inglaterra, África do Sul… mas até então não na Irlanda. Eu sabia muito pouco, quase nada sobre a tal “Ilha Esmeralda”, de onde até as cobras tinham fugido! Diz a lenda que por obra e graça de Seu Patrício. Mas, quanto mais nós pesquisávamos, mais a Irlanda aparecia como forte possível candidata. Em seis meses pagamos a escola e compramos as passagens. E em mais três, zarpamos!

Em um ano na Irlanda conheci histórias de outros trintões que contornaram dilemas ainda mais complicados. Um mineiro que deixou esposa e filha em São Paulo; um casal de dentistas que deixou a filha aos cuidados da avó; uma jornalista que alugou o seu apê e caiu no mundo levando tudo. Gente que apesar das adversidades realizou o tão sonhado intercâmbio. Gente que planejou uma coisa e depois mudou tudo. Gente que teve a vida completamente modificada durante o intercâmbio e gente que voltou para retomar a vida exatamente de onde havia deixado. Afinal, nem tudo que a gente deixa pra trás a gente perde e nem tudo que a gente perde por que deixou para trás era assim tão importante.

Falando em deixar para trás, quer saber como terminou a história daquele relacionamento sério? Não terminou! Ele não foi comigo, mas ficou no Brasil à minha espera. E depois de longos 365 dias, nós nos abraçamos mais uma vez. Acabamos de completar dez anos de namoro este ano e continuamos no maior chamego.  Eu, ele e a nossa cadelinha.

E que seja eterno enquanto dure… ou até o próximo intercâmbio!

 

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  • Daniel

    Amei o texto! Pena que não fui contigo, da próxima vez iremos juntos. ❤

  • Erika Amorime

    Lindo o texto, linda a trajetória. Feliz de quem sonha e, por isso, nunca está de mãos vazias.

  • Maria luiza

    Maravilha Gabi, foi uma experiência bem vivida e curtida, valeu a pena, não???

  • Lucas Estevam Ferreira

    Com certeza intercâmbio é a melhor experiência da vida!!! Adorei o texto Gabi! Seja bem-vinda!!!

  • Sandro Kellermann de Carvalho

    lindo texto Gabi!! Minha aventura na Irlanda eh um pouco diferente, não eh um contexto de estudo mas de trabalho. Desafios um pouco diferentes mas me3 identifico com diversos pontos. Mas entre as coisas mais preciosas aqui, estão, sem dúvida, as amizades feitas 😉

  • Jrmajor Santana

    Perfeito o texto, saboroso de ler e imaginar o quanto uma experiencia dessas é imprescindível para nosso amadurecimento…

  • Flavia

    Que máximo!
    Tenho 27, e acho que não conseguirei fazer o tão sonhado intercâmbio antes dos 30…falta mta grana e um pouco da língua (que já estou tentando resolver essa parte). Ler textos assim nos renova, e nos dar ânimo pra não desistir dos sonhos. Linda experiência!

    • Gabriela da Fonseca

      Olá, Flavia! Não desiste não. Se não der pra fazer antes dos 30, faz depois! É uma experiência incrível pra qualquer idade! Com relação à grana, esse foi um dos motivos pelos quais fui para a Irlanda. É muito mais em conta que ir pra Inglaterra ou Austrália, por exemplo. Resolvi não adiar e escolhi o destino que cabia no meu orçamento. E com relação ao idioma, também cheguei lá com o básico. Mas lá a gente evolui muito mais rápido. Boa sorte pra você! Fico aqui na torcida por você! Bju.

  • Deborah Guarani Kaiowá

    E depois dos 40? Tô quase lá e com essa vontade imensa de me jogar no mundo. Amei o texto! Delícia de ler!

  • maria luisa

    Gabi, adorei seu blog, parabéns. Estou criando coragem para cair no mundo. Ancs

    • Gabriela da Fonseca

      Obrigada, Maria Luisa! Espero que os meus textos sirvam de incentivo. Cria coragem e vai sim! Você vai adorar! Bju!

  • Mariana Costa

    Que legal!! Estou nessa! Foram muitos dilemas, mas consegui sair da minha zona de conforto e partir para uma aventura/sonho depois dos 30. Adorei o texto.

    • Gabriela da Fonseca

      Obrigada, Mariana! Fico feliz em saber que você se identificou com o texto. Boa sorte na sua jornada! Eu sinto saudades todo dia de tudo que vivi naquele ano. Bju!

  • maria luisa

    Gabriela, admiro sua coragem e persistência. Tenho certeza que retornou mais forte, experiente e decidida. Que venha mais Irlandas. Abcs