SÃO PAULO E O AMOR AO TURISMO TEATRAL

São Paulo respira Arte. Nenhuma outra cidade do Brasil é tão efervescente em criação. A Economia Criativa vem trazendo turistas e viajantes do país e do mundo inteiro atrás de novidades. São museus, galerias de arte, cinemas de rua, espaços culturais, e teatros. Os viajantes mais inquietos chegam aqui atrás de tendências e surpresas. Na Economia Criativa existe já até um termo para isso: Coolhunting, e Coolhunter, o caçador de tendências.

O Ator e Produtor Pedro Bosnich está sempre com a agenda lotada entre ensaios e gravações, mas é um Viajante Profissional quando dá tempo. Pedro que já visitou alguns dos destinos mais inusitados do planeta, sempre viajou com outros olhos. Estava ele em Londres no famoso West End, o quarteirão dos Teatros londrinos, em 2011 assistindo à uma peça de um autor americano de drama e humor ácido chamado Neil LaBute. A peça era “O Bosque Soturno” (In a Forest, Dark and Deep) sobre a relação conflituosa entre dois irmãos.

Um ano depois o também Ator Flávio Moraes voltava de Nova York com um diploma em Roteiro, e seguindo os passos do avô Antônio Ermírio de Moraes, surgiu a paixão pela Dramaturgia e por empreender.

Os dois amigos não pensaram duas vezes e negociaram os direitos do espetáculo. Uma peça que seria difícil de vender, por ser um drama de tirar o fôlego, com dois personagens problemáticos, e um poder de catarse, em uma história que nos faz pensar até onde iríamos por nossa família.

Turismo Teatral é hoje uma realidade na cidade de São Paulo, que conta 164 teatros, 39 centros culturais um número que só aumenta. São mais de 100 peças em cartaz por semana, e 600 peças produzidas por ano. E o Brasil inteiro vem para São Paulo atrás de seus espetáculos. 56% dos turistas, que são quase 16 milhões por ano assistem à alguma peça.
A explosão desse nicho turístico começou com o furor dos musicais da Broadway no início dos anos 2000, depois veio o Stand Up Comedy, inspirados nas casas de Nova York, e nos últimos anos as peças com caras conhecidas de novelas, e as comédias de gostos duvidosos. Não importa que espetáculo você procure, em São Paulo encontrará. De espetáculos pós-dramáticos que ninguém entende nada (nem os próprios atores) até um jantar em um cabaret francês com performances e artes circenses.

Quatro anos se passaram, e Pedro e Flávio não desistiram de um gênero de espetáculo que não somente merece ser visto, como investido. Se a Arte imita a Vida e a Vida imita a Arte, o drama é a forma de nos enxergarmos no outro, e conhecermos nós mesmos. É quase o que fazemos quando viajamos. Viajamos para conhecer o mundo, pessoas, culturas, e no fim voltamos nos conhecendo melhor do que quando embarcamos.

Flávio traduziu o texto denso da peça para o Português, e como um Dramaturgo, traduziu também a essência cultural desses dois personagens, Bobby e Betty.

Os dois amigos foram convidados para abrirem a temporada de espetáculos do Eva Herz, o Teatro que fica dentro da Livraria Cultura do Conjunto Nacional, por si só, um dos pontos turísticos mais visitados de São Paulo, em meio ao burburinho hipster e cultural da Avenida Paulista.
O espetáculo foi levantado em menos de dois meses. É difícil convencer patrocinadores de apoiarem dramas. É quase tão difícil quanto convencer um viajante brasileiro à desbravar a Ásia. Mas o Amor pela Arte, e nesse caso, pelo Destino, falou mais alto.
Pedro que é um dos Produtores da peça, e um dos Atores mais versáteis do mercado, interpreta Bobby. A busca por uma grande atriz para interpretar Betty começou logo depois de os direitos do espetáculo serem comprados. Algumas grandes Atrizes foram cotadas para a personagem, que ficou com Guta Ruiz, uma das melhores Atrizes da atualidade, e a entrega dos dois à peça é visceral, de corpo e alma.

Acompanhei os ensaios da peça por uma semana, e a pré-estreia na última quinta-feira. A Direção é assinada com maestria por Otávio Martins, que conseguiu tirar dos atores uma das mais brilhantes e reais interpretações de uma relação conturbada entre irmãos, que passam juntos uma noite chuvosa em uma casa em um bosque.

Assistir à espetáculos em viagens é sempre uma grande surpresa. A língua muitas vezes é uma barreira, e mesmo assim as filas infindáveis do TKTS da Broadway e do West End estão sempre lotadas de brasileiros – poliglotas ou não, porque boas histórias transcendem barreiras linguísticas.

E São Paulo hoje compete diretamente, e sem qualquer dúvida com Londres, Nova York, Paris e outras grandes metrópoles de forte cultura teatral.

Se você estiver viajando por São Paulo até o dia 24/03, não deixe de conferir “O Bosque Soturno”, quintas e sextas às 21h no Teatro Eva Herz.

Fotos: Ricardo Peres 

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