As loucuras do Deserto do Fayoum

Olá viajantes, tudo bom? Bom, como vocês se lembram, eu tinha acabado de voltar de Alexandria e o Cairo estava super quente, como sempre! Não lembra? Então confere nesse link aqui e bora pra mais uma história! Dessa vez, vou contar sobre o Deserto do Fayoum!

Depois da viagem, coincidimos de chegar no Cairo logo no finzinho do Ramadã. A galera vai a loucura, eu juro! Agora imagine a situação: todos os egípcios pediram e clamaram pra que não saíssemos do hostel em hipótese alguma (nem pra comer, a gente teve que pedir delivery!), porque lá embaixo estava cheio de “little zombies“. Eu confesso que não fazia ideia do que eles estavam falando. O que rola é que nos três dias depois do Ramadã é a comemoração pelo fim do jejum. Então eles piram de verdade, mas é ai que está o problema: só os adolescentes. E como todo mundo já foi adolescente, sabemos muito bem o que passa na cabeça de um: nada.

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egípcios fazendo os egípcios

Como boas brasileiras, não demos muita bola (hahahaha), e eles disseram que de dia não tinha muito problema, era só sairmos de manga comprida e calça. Então saímos pra comer no GAD, um restaurante baratinho e com uma comida super gostosa. O caminho até lá levava aproximadamente dez minutos, e nesse curto período de tempo, eu perdi as contas de quantos garotos mexeram com a gente e ofereceram cigarro. Eu nunca vi isso na minha vida, e olha que eu já vi muita coisa estranha.

Depois disso, resolvemos sair apenas em questão de vida ou morte (tipo pegar um suco na esquina, porque nem água no hostel tinha – na verdade tinha, mas eles diziam pra não tomar da torneira, porque como o encanamento é bem enferrujado, nós não temos anticorpos preparados pra lidar com as bactérias), ou quando os meninos estavam lá, porque ai nem olhavam pra gente direito.

No ultimo dia do Ramadã, um menino do Baharin estava chegando. É um país bem pequeno na África, também árabe, e tem a segunda moeda mais poderosa do mundo. Pensa em uma pessoa rica. Não chegou perto desse rapaz. E nem do espaço que ele conquistou no meu coração. Ele estava em outro hostel (porque o outro tinha ar condicionado, e ele não é bobo), mas assim que chegou do aeroporto, foi cumprimentar as brasileiras (e a portuga, claro). De início, eu não dava nada. Mas depois, cada conversa com ele me fazia gargalhar. Realmente um amigo que quero levar pra vida toda. Ano que vem ele até vem pro Brasil visitar a gente.

Com o passar dos dias, varias pessoas foram chegando, e estava tava quase na hora: DESERTO DE FAYOUM. Nem dormi direito no dia anterior, de tanta ansiedade. Descemos a escadaria do hostel e chegamos nas quatro rodas que nos levariam pro deserto do Fayoum. O caminho levou aproximadamente duas horas, e eu nunca pulei tanto dentro de um carro. Parece que a viagem levou a vida toda. Mas, então, chegamos no lugar que eles disseram ser onde faríamos sand-boarding. MEU DEUS EU VOU MORRER. Não morri, mas não foi por falta de tentativa.

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Deserto de Fayoum ao meio dia

Logo que chegamos, vimos duas tendas e tapetes embaixo delas. E ÁGUA GELADA. Eu achei que fosse um milagre bem irônico, porque nem na capital tínhamos aquilo, e no meio do deserto de Fayoum encontramos. Um oasis, realmente. E falando nisso, sabia que em volta de oasis, geralmente, tem areia movediça ? Pois é, eu descobri do pior jeito.

Da tenda dava pra ver o oasis, e o Khalaf, de Baharin, tinha dito que queria ir lá pra nadar. Todos disseram pra ele não ir, porque era muito salgado, e sal com sol não da muito certo. Ele acabou desistindo, mas eu né, gente, sou perseverante. Virei pra Mavick (a minha melhor amiga – tinha que ser) e falei: miga vamo. Ela nem pensou duas vezes.

Chamamos também a Aya, uma das egípcias. Ela me avisou pra não chegar perto, mas eu pensei “menina eu to no deserto no Egito, no oasis, você saia da minha frente que eu vou sim”. E fui. E achei que nunca mais fosse voltar. Minha perna afundou até o joelho, e a areia tava pelando. Eu juro que quase chorei de desespero, achei que ia morrer de verdade. Quem me puxou ? A Aya né, porque a Mavick só tava rindo. E o pior: eu também estava.

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Deserto de Fayoum e Oasis ao fundo

Experiências pró-morte à parte, fomos pro sand-boarding (eu não canso, preciso me controlar). O rapaz responsável estava explicando como deveríamos fazer, mas eu nem tava prestando atenção, só queria pegar a prancha e sair correndo. E assim que ele terminou de falar, foi o que eu fiz.

Tem que passar uma coisa branca na prancha, semelhante a uma vela, pra que ela escorregue. Eu passei demais. Mas não foi um pouco demais, foi realmente demais. E o que acontece se você faz isso ? A prancha nem sai do lugar. Ta sentindo a vergonha alheia daí ? Eu senti bastante aquela hora. Mas também, na hora que eu fui, meu amigo, fui com vontade.

Desci a ladeira toda de areia, berrando demais, coração acelerado, nada passando pela cabeça. Cheguei lá embaixo, olhei pra cima, meus pés queimando por conta da temperatura (porque é recomendado andar de meia), e eu não ligava pra absolutamente nada. Vi a silhueta de todos contra o sol, e ouvi várias gargalhadas. Só sorri e pensei: foi pra isso que eu nasci.

Deixaram os quatro rodas parados, e dava pra subir no teto. Claro que eu subi, e ai algumas pessoas me seguiram. Conversamos lá de cima, e de repente, sentimos cheiro de churrasco. É isso mesmo, churrasco no meio do deserto. Sabor especial de areia! Mentira, tava muito bom. Comemos em um tapete no chão, agora sem tendas, porque já não tinha muito sol. Todo mundo estava tão feliz. Até a portuguesa, eu juro! Sei lá, foi maravilhoso. Todas as minhas brasileiras já estavam lá, e todas as pessoas se gostavam. São raros esses momentos. Só aproveito.

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Por do sol no deserto 

Seguimos caminho pra um outro local, onde iríamos fazer uma fogueira e comer marshmallows. Este lugar era uma cidade em ruínas, conhecida por ter vários cacos de moringas em que a Cleópatra bebia água. Era lá que seus servos descartavam todo o “lixo”.

Montanhas de caco, algo realmente impressionante. Vimos o sol se por de lá. De um lado, não se via nada além das luzes das estrelas. De outro, apenas as luzes da cidade. E no meio, um por do sol de tirar o folego. Eu juro que isso é possível. E eu juro que estava lá. E eu juro que, ali, eu pensei sobre cada pedrinha que tinha movido meu caminho para aquele momento, naquele lugar, com aquelas pessoas. E valorizei cada segundo.

 

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por do sol no local das ruínas da Cleópatra

Devo ter visto umas 15 estrelas cadentes, e conversado com meio milhão de pessoas. Só sei que a volta pro hostel foi a mais cansativa de todas, incluindo as do mochilão. Chegamos no hostel, e eu subi correndo pela escada mesmo só pra conseguir tomar banho e deitar (afinal, 5 chuveiros pra 55 pessoas, é uma situação bem complicada). Tive um sono de princesa aquele dia! E no dia seguinte fomos ao Khan El-Kalili, um dos mercados mais antigos do mundo. Mas isso fica pro próximo capítulo.

Espero que tenham gostado do meu relato sobre o Deserto de Fayoum. Me acompanhem no instagram @heloisemeirelles. Obrigada, até a próxima!

 

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