A geração que casou-se com a próxima viagem

Este final de semana participei do casamento de uma grande amiga. Minha amiga casou-se com 25 anos e foi a primeira de nosso grupo de amigo do colégio a caminhar pelo altar e dizer o tão famoso “sim”. Confesso que fico cheio de felicidade ao ver meus amigos casando e pensando em seus filhos, carro novo com bebe conforto, apartamento e em qual escola irão seus filhos estudar. Fico feliz mesmo, afinal, pra mim isso sempre foi um sonho desdes criança: casar, ter filhos, minha casa e finalmente estaria realizado e feliz por completo e quando desse tempo iria pensar na próxima viagem. Mas hoje descobri que não.

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Não mesmo! Na verdade quando paro pra observar o mundo do alto de meus 25 anos, tudo que vejo é como é como o que eu sempre quis, não era o que eu precisava. Sabe aquele tênis novo ou o carro do ano que eu sempre quis? Nunca precisei! Aquela TV tela plana e o relógio italiano? Também, nunca precisei. Na verdade precisava é de muito pouco pra ser feliz de verdade. Precisava antes de tudo, ouvir menos aos outros e mais a mim.

Foi neste dia em que cai no mundo. Mas não cai de maneira tímida ou com vontade de voltar pra casa. Mergulhei de cilindro, pois não queria voltar rapidamente a superfície de desejos estereotipada pelos adultos. Eu apenas voltaria se encontrasse algo novo. Queria algo que fizesse sentido. Algo maior que uma televisão de tela plana e muito mais barato que o carro do ano. Buscava de fato um sentido no todo. E encontrei.

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Fez tanto sentido que já não via mais a necessidade de impressionar amigos com jacarés na camiseta ou coroas em meus relógios. Minha maior necessidade era impressionar a mim mesmo pronunciando palavras de novos idiomas e experimento texturas de comidas jamais provadas antes. Era como se antes de viajar, a minha vida fosse um estágio, mas toda vez que carimbavam meu passaporte era como ser efetivado na melhor multinacional do planeta.

Passeando pelo mundo, via meus prazeres sendo saciados, mas nunca por completos. Sentia que quanto mais eu me doava ao mundo, mais ele queria de mim. Então eu aproveitava pra pegar um pouco dele. Sugava sorrisos sinceros de crianças marroquinas e guardava amizades plantadas ao acaso, durante uma carona que peguei em Portugal. Juntava memórias de noites malucas na Croácia, e ria de mim mesmo por perder o último voo para Nova York.

Assim, entendia o poder de uma próxima viagem. Aos poucos, escrevia em minha alma nomes de anjos que talvez eu nunca mais encontraria em meu caminho. Anjos que por dias, minutos ou horas dividiram suas vidas comigo, e eu com eles, e no final entendíamos tudo. Eu nunca estive sozinho nessa, tudo que eu precisava era aceitar que eu seria sempre minha melhor companhia. Você não precisa de uma vida inteira com alguém, precisa apenas de um momento inteiro com essa pessoa. Afinal, até o coelho de Alice sabia que o eterno as vezes dura apenas um segundo.

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Sabia mesmo. E eu entendia que já não mais aspirava uma carteira de trabalho, mas sim um passaporte rabiscado. Não queria chegar antes pra uma reunião – a não ser que fosse sobre o próximo destino da viagem. No fundo não queria mais o carro novo e nem boletos ou parcelas do novo apartamento pra pagar. Queria mesmo, apenas o que eu precisava.

Eu penso mesmo na minha próxima viagem. As coisas são tão renováveis. Os sonhos, tão mutáveis. Já troquei muitos bens por momentos que já se foram e muitos me julgam por isso. Muitos me olham torto ou me chamam de louco. Mas, pra mim, louco mesmo seria ter o que eu nunca precisei.

  • Carol

    ótimo post!!

  • Denilson Saturnino

    Texto fantástico. Fez-me pensar sobre a minha vida.
    Valeu, Estevam! Obrigado.

  • Lucas Estevam Ferreira

    Valeu Denilson! O importante é sempre lembrarmos que mais importante que coisas ou rótulos são os momentos!
    Abração