O dia que uma africana me propôs a casar com sua criança

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Após uma semana de estadia na casa da família de uma amiga em Brikama, na Gambia partimos em direção à Guiné Bissau em uma pequena e velha van (sept-place) com uma parada planejada em Ziguinchor, na região de Casamanche no sul de Senegal. Ao chegar na tumultuada estação de Ziguinchor nesse último domingo a após driblar as dezenas de pessoas oferecendo transportes, pegamos um táxi para nos levar ao porto e garantirmos nossa passagem de balsa para Dakar ainda na próxima quinta-feira, já que soubemos que os lugares na balsa poderiam esgotar rapidamente.

O táxi, uma mercedes amarela, aparentemente da década de 70, bem comum no Senegal, parece na verdade um pedaço de motor emendado em latas enferrujadas que para nossa surpresa tinha até assentos para sentarmos. Embora com teto, numa chuva forte, bem comum na região de casamanche nessa época do ano, a água entrava facilmente pelos buracos e caía como uma cascata dentro do carro. Quando chegamos no porto avistamos a balsa que parte aos domingos e quinta-feiras em direção à Dakar, o que não foi um bom sinal já que fomos informados pelo guarda do porto que só poderíamos entrar no guichê do porto para comprar nossa passagem depois que a balsa partisse e assim teríamos que esperar ali na rua por algumas horas. O sol em fúria africana fazia o suor escorrer por todo o corpo mas principalmente embaixo da mochila nas costas.

Como não planejamos ficar em Ziguinchor, não tínhamos nenhum informação sobre a cidade, não tínhamos internet ou serviço de telefone. Começamos a andar pela rua barrenta à procura de uma sombra, quando um jovem senegalês parou para conversar com a gente, perguntar de onde éramos e dizer que nunca tinha encontrado com pessoas brancas. No início da conversa ele logo nos disse que adoraria poder nos receber na casa deu seu irmão mais velho e desconfiados logo dissemos que não precisava, que tínhamos que seguir à Guiné Bissau assim que conseguíssemos comprar nossa passagem de barco. Com meu francês arranhado, ficamos conversando por um bom tempo até que a imagem de seguir em um carro apertado no meio daquela tarde quente nos fez reconsiderar o convite e decidimos mudar os planos, passar a noite em Ziguinchor para seguir para a Guiné Bissau no dia seguinte.

Daoda tinha um sorriso bonito e frequente mas como é comum na África, com uma cárie bem entre seus dentes da frente. Mas seu sorriso era sincero e contagiante e logo ficou mais largo quando o perguntamos se ele tinha certeza que não seria um incômodo dormir na casa do irmão dele como ele tinha oferecido. Quando finalmente conseguimos comprar nossa passagem, seguimos para a casa de seu irmão. Fomos cumprimentados pelas crianças, seus sobrinhos que diziam com entusiasmo: “Tubáb, Tubáb” que em Wolof, o dialeto local, significava: homem branco. Fomos recebidos com muita alegria não só pelas crianças mas por todo o resto da família. A casa era grande e espaçosa para o padrão da região e embora um pouco escura, os sorrisos eram bem visíveis, largos e simpáticos.

De tradição e religião muçulmana assim como na Gambia onde eu tinha estado na semana passada, eu pensava que estava preparado para as diferenças culturais. Fui apresentado à esposa do irmão de Daoda e enquanto tentava fazer associações mnemônicas na minha cabeça para lembrar seu nome: “Fadbintuturê”, logo veio a segunda esposa se apresentando: “Genebátravél” e logo a terceira: “Uomogiálo”, todas muito simpáticas. A poligamia patriarcal é comum nos países de cultura islâmica, embora não tão freqüente nos países pobres africanos, já que para ter mais de uma esposa deve se ter as condições econômicas para manter todas elas e os respectivos filhos que normalmente chegam à casa das dezenas. Cada uma tinha seu próprio quarto e segundo Daoda, seu irmão passa uma noite com a primeira esposa, outra noite com a segunda, outra noite com a terceira e a quarta noite passava sozinho, para descansar, antes de repetir o ciclo.

Mohamed era seu nome. Um nome cliché, pensei comigo. Fomos convidados a sentar na sala escura e começamos a bater papo com as duas primeiras esposas e Daoda. Mohamed, segundo me disseram trabalhava muito e chegaria em casa só mais tarde. Logo me perguntaram se eu era casado e não conseguiram esconder a supresa quando disse que eu era solteiro aos 28 anos de idade. A primeira esposa logo ofereceu sua filha mais velha de 11 anos para se casar comigo, considerei a oferta na brincadeira dizendo que eu poderia seguir viajando por mais 10 anos e esperar que ela fosse mais madura para então celebrar casamento. Ela disse que a espera não era necessário e antes que ela pensasse que eu estava falando a verdade, mudei de assunto.

O pequeno ventilador mal refrescava a sala e o suor escorria na minha testa mas para “refrescar” logo chegava a filha da terceira esposa com pequenos copos de chá verde concentrados e bem quentes. Na hora de usar o banheiro eu bato a mão na testa. Eu tinha esquecido de trazer papel higiênico da Gâmbia. Em muitos países do mundo, papel higiênico é apenas usado como guardanapo e para limpezas íntimas não se usa nada além de um pequeno balde com água e a mão esquerda (por isso é tão importante comer e cumprimentar as pessoas sempre com a mão direita por essas bandas). Será que é preciso dizer que vaso sanitário é também um artigo raro por aqui? Dizem que é até mais saudável agachar para as necessidades sólidas, mas não nego que nesses dias tenho sentido falta do nosso trono. Claro que eu acabo usando o resto da água do balde para tomar um banho, o que o meu anfitrião deve ter achado no mínimo estranho já que banho diário não parece ser coisa normal por aqui.

Saímos caminhando acompanhados de Daodar pelas ruas esburacadas e enlameadas da cidade procurando um “internet cafe”. Wifi é um artigo raríssimo por essas bandas (estou no momento na capital da Guiné Bissau, usando o wifi de um restaurante para enviar esse texto – apenas para baixar meus e-mail levei mais de 30 minutos!) Logo depois já de volta ás ruas vemos uma multidão cantando e pulando. É o carnaval de rua dos domingos de Novembro. Alguns homens se vestiam de mulher, outros se fantasiavam, mas todos seguiam pelas ruas acompanhando as batidas de tambores e a música cantada pela maioria.

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Mas sem querer, quem chamava a atenção era eu e meu amigo Rafael, como sempre nesses lugares onde pessoas brancas são raridades. Aparentemente éramos os únicos estrangeiros em toda a cidade. Em alguns lugares as crianças paravam para nos tocar, para encostar nos pelos dos braços e das pernas (bizarro para eles!) pediam para serem fotografadas e gritavam alegres: Tubab, tubab! Na hora da janta de volta ja de volta à casa de Mohamed, somos servidos, no chão, em uma grande tigela cheia de arroz e molho e alguns pedaços de carne no centro. O normal é comer com a mão e todos do mesmo recipiente, mas por sermos ocidentais acho que ganhamos carta branca para usarmos colher. Antes de comer porém, um pequeno recipiente com água é passado e todos lavam suas mãos ali, sem usar sabão. Quando a vasilha chega na última pessoa a água já está, digamos, encardida.

No meio da noite fui acordado várias vezes por pernilongos entrando no meu nariz e ouvidos. Antes que eu fosse carregado por eles tive a brilhante ideia de baixar a mosquiteira e ainda assim eu podia ouvir os mosquitos batendo suas asas furiosamente do lado de fora, querendo entrar e dormir comigo. Na manhã seguinte decidimos ir para um consulado de Guiné Bissau para conseguir nosso visto da forma mais “honesta” possível e tentar evitar problemas na fronteira. A embaixada da Guiné Bissau (um dos países africanos cujo idioma oficial é o português) funciona numa casa surrada em uma rua de terra e esburacada em Ziguinchor, mas fomos cumprimentados com simpatia, em português pelos funcionários locais que usando uma máquina de escrever antiga preencheram nossos vistos, colaram no nosso passaporte com uma cola bastão e nos desejaram boa viagem!

A aventura segue aqui na Guiné Bissau e acabo de voltar encharcado de suor de uma leve caminhada pelas ruas destruídas da sofrida capital Bissau onde em uma placa nas Nações Unidas se lê: “Cerca de 37% da mulheres guindasse entre 20 e 49 anos de idade casaram quando tinham menos de 15 anos e cerca de 40% não escolheram seus maridos”. Quem será minha nova pretendente?

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