A VELHA SENHORA DO VLTAVA

praga

Já era noite de Natal quando virei uma esquina e me deparei com a Ponte Karluv. O vento frio do portão de entrada do Leste Europeu (bem entrada mesmo, porque geograficamente fica no coração da Europa) me congelou por um instante, e como qualquer viajante após um voo intercontinental e uma conexão na Alemanha, eu já estava sofrendo os efeitos do jet lag, apenas com as roupas do corpo e um trench coat, que insisti em levar à bordo, e mesmo me incomodando a viagem inteira, porque acho extravagância de viajante viajar com muita coisa na mão (não vou nem me ater ao estresse que causam os viajantes que levam uma mala de rodinha média como bagagem de mão) foi esse casaco que me salvou de uma hipotermia. Minha mala de rodinhas de tamanho médio (o suficiente para 15 dias fora de casa) trepidava entre os paralelepípedos históricos da Karluv, que liga o burburinho turístico de Praga Antiga aos quarteirões do Castelo, e suas vistas indescritíveis da cidade.

Esqueci o frio e atravessei a ponte, olhando para as luzes que ofuscavam dos dois lados. Eu estava cruzando o Rio Vltava. Eu estava em Praga, três anos e meio após minha primeira visita, e havia esquecido de como ela é linda. Eu cruzava o coração da Velha Senhora da Europa, enquanto todos os santos do caminho e o céu estrelado faziam da minha noite de Natal uma sinestesia de cores e sensações, que se misturavam com o aroma do hidromel fervendo, da cidra fresca, das cerejas cozinhando. Um sorriso natural surgiu, e me senti personagem de algum filme do Dan Brown ou da Sofia Coppola. Eu deixava naquele momento de ser viajante, e me tornava parte da paisagem.

Cheguei do outro lado da ponte, às margens das colinas que me levariam ao Distrito do Castelo. Meu hotel deveria estar ali nas proximidades da ponte, segundo um print no meu Ipad. Eu só comecei a levar celular e computador para viagens depois de algumas emergências sem esses aparatos tecnológicos – das mais simples: Precisar de um despertador – até às mais desesperadoras: Precisar trocar a data de uma passagem, ou mudar todo o itinerário, porque imprevistos acontecem, e na minha humilde opinião, são esses imprevistos que nos dão de presente as melhores histórias. E naquele momento, ao invés de usar um mapa de papel e valorizar o espírito Wanderlust, quis ser hispter e confiar em um Ipad.

Aos poucos o movimento ía se dissipando. Era tarde da noite para um inverno europeu… Umas oito da noite! Somente viajantes muito corajosos (e que não sentem frio) ficam na rua esse horário. Encontrei uma barraquinha de cidra. Perguntei com o meu checo enferrujado onde ficava meu hotel e o jovem loiro, alto, de mãos enormes e pinta de modelo (algo tão comum na República Checa quanto Trdelníks) disse que não sabia. Com toda gentileza, pegou seu Iphone, abriu o Google Maps, e disse que o hotel ficava do outro lado da ponte, de eu onde eu acabava de vir. Ele perguntou de onde eu vinha, e eu ía responder: “Do outro lado da ponte…”, mas respondi que vinha do Brasil. Ele sorriu, me deu boas vindas e me presenteou com uma cidra para esquentar. Para muitos esses pequenos momentos podem passar despercebidos, mas para mim, são esses momentos que fazem uma viagem valer a pena.

Com o corpo agora quente pela bebida, puxei minha mala e passei a Karluv muito mais rápido do que quando a atravessava alguns minutos antes. Lá estava meu hotel cinco estrelas em uma mansão barroco-boêmia em uma ruazinha escondida do outro lado da ponte. Em Praga e em todo o Leste Europeu ainda encontramos preços bem menores que as vizinhas ocidentais, que nos permitem uma vez ou outra a essas extravagâncias. E nesse Natal tudo o que eu precisava era aproveitar Praga e descansar antes de eu continuar a minha viagem.

Praga é um dos destinos secretos do mundo. É a caixinha de surpresas da Europa, é uma Obra de Arte. Estar em Obra é estar em Obra de Arte – cujas esquinas e vielas que escolhemos irão dar as cores da nossa Praga.

E todo viajante merece essa Praga.

 

Imagem: Reprodução.

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  • Fernando Carraro

    Meu caro e inesquecível Yan…. que saudades…. onde você está neste nosso querido planeta azul… o que anda fazendo?… Por que parou de dar notícias?… Por acaso já se tornou aquela pessoa famosa que sempre vaticinei que seria????? Procurei pelo seu nome e encontrei e li sua crônica sobre a velha senhora ////////////////vltava… Nossa você já é jornalista, escritor, cineasta o que falta ainda? Muito linda sua crônica… PARABÉNS!!!! meu wathzapp 11-99880-9910. Um abração pra ti, velho amigo Yan da pessoa que mais te admirou neste mundo… Pretendo aprender muito com você. E por favor, mande o nome da pousada do seu pai em canoa quebrada e tel. se puder. A rivederci