70 tons de cinza

 

70 anos que, nem em pensamento, poderiam se equiparar a 70 minutos. Mais de 70 acontecimentos em tons de cinza, preto e vermelho – muito mais de 70 mortes . 70 anos da época em que foram derramadas muito mais do que 70 lágrimas.

Diferentes lembranças ainda se passam pela cabeça dos sobreviventes ao Holocausto, um dos maiores genocídios da história. Hoje, dia 27 de janeiro, é comemorado 70 anos da libertação do campo nazista de Auschwitz-Birkenau.

Auschwitz não era uma cidade, porém um bairro, onde foi construída a maior “máquina da da morte” humana que se tem notícias. Um lugar triste e sombrio, onde os dias mais ensolarados exalam lembranças ruins e sofrimento. Nada que alegre um viajante, ou desperte sorrisos, porém um daqueles lugares onde você tem que ir uma vez na vida. Aliás, impressionante como existem pessoas que ainda juram a inexistência do Holocausto.

Milhões de judeus e europeus foram brutalmente assassinados durante o período da Segunda Guerra, além de ciganos, Testemunhas de Jeová, homossexuais, deficientes físicos e mentais, opositores políticos e religiosos do regime nazista alemão, prisioneiros soviéticos de guerra, civis soviéticos e poloneses, além de outros grupos marginalizados pela Alemanha Nazista durante o conflito. A ideia era exterminar raças diferentes das que não fossem “puras”, ou seja, totalmente alemãs. O governo guardava a sete chaves esse segredo, enquanto pessoas de todas as idades e sexos trabalhavam arduamente, sofriam diversos tipos de tortura e serviam de cobaias para experimentos científicos. Isso, claro, antes de serem executadas em câmaras de gás (isso foi batizado como “Solução Final”).

Logo na entrada, a famosa frase: “Arbeit macht frei” (o trabalho liberta) iludi milhões de pessoas e – acredite – a grande maioria das vítimas não tinha ideia do que lhes aguardava. As torturas e maldades eram infindáveis. Dormiam em condições precárias, em “triliches” sem colchão e às vezes (mesmo no inverno com uma única coberta.

Quando visitei o campo necessitei várias vezes sair de alguns galpões para me “recompor” devido ao “peso” da história intrínseca em cada fio de cabelo (os presos tinham o cabelo cortado e vendido para fábricas têxteis), cada sapato (existe um galpão cheio deles) e cada maleta de quem fez uma viagem sem volta.

A visita a Auschwitz e Birkenau leva um dia inteiro e tudo é gratuito (dos lockers, audio guide até mesmo o ônibus translado entre um complexo e outro). O governo mantém tudo isso para que locais e turistas nunca esqueçam o que aconteceu. Muito diferente de orgulho, o sentimento é de vergonha e fazer questão de deixar claro que tal fato nunca deve ser repetido na história.

Para chegar de Cracóvia até Auschwitz você pode tomar uma van do terminal de ônibus da cidade que te leva em menos de uma área até o portão de entrada do campo, e lá um ônibus realiza o trajeto (cerca de 3km) entre os dois principais campos.

Vale lembrar que o campo de Birkenau não possui tantos galpões e objetos quanto Auschwitz, visto que muito foi queimado e destruído logo antes dos russos chegaram ao local. Todavia, os traços e lembranças do terror são visivelmente perceptíveis a cada passo dado lá dentro.

Hoje completa-se 70 anos da maior tragédia mundial. A situação nestes campos só “melhorou” para as vítimas após a derrota dos nazistas, com os campos abandonados e, posteriormente, milhares de prisioneiros libertados.  Todos os anos, o governo polonês incita todos os turistas e visitantes a refletirem sobre o acontecido, e, mais profundamente, sobre si mesmos e suas próprias realidades.

 

Awschwitz                                                                                                       Foto: Reprodução