Sobre chegadas e partidas

Foto: Samantha Mitchell/Corbis
Foto: Samantha Mitchell/Corbis

Há muito tempo que estar numa rodoviária, num aeroporto ou mesmo na estrada me traz uma sensação indefinida. É ao mesmo tempo felicidade e tristeza. É ao mesmo tempo paz e inquietude. É ao mesmo tempo chegada e partida.

A verdade é que chegar e partir são dois verbos de um mesmo ciclo. Para chegar em algum lugar, você deve partir de outro e o contrário também é verdadeiro. Ninguém chega sem ter partido e ninguém parte sem logo chegar.

Estes lugares me trazem essa sensação confusa. Neles, há pessoas chegando e reencontrando outras. Queridas. Você nem sabe quanto tempo elas ficaram sem se ver, nem sabe a relação que existe entre elas, mas já imagina toda a história, já imagina que foram anos vivendo separadas, sem poder se abraçar, sem ao menos poder se tocar.

Nestes mesmos lugares, há também pessoas partindo. Há muitas e muitas despedidas, há lágrimas, há lencinhos de papel, há tristeza tanto para quem fica quanto para quem vai. Mas a pessoa que vai, depois que chegar ao destino, talvez seja muito feliz também. Ela pode encontrar um segundo lar, pode viver momentos maravilhosos e, quando for embora de novo, vai chorar todas as lágrimas que caíram da primeira vez que partiu.

A vantagem disso tudo, hoje, é que a tecnologia evoluiu e a comunicação ficou um trilhão de vezes mais fácil. Hoje, você pode falar com alguém que está do outro lado do oceano sem pagar a mais por isso. Inclusive, você pode falar com essa pessoa durante as 24 horas do dia se vocês quiserem. Não tem que esperar mais que a carta chegue, ou que a telefonista repasse a ligação, ou que… sei lá.

Sim, estou dizendo que o desenvolvimento tecnológico tem tudo a ver com chegadas e partidas. Mas esse não é bem o foco. O ponto onde eu quero chegar é um pouco mais emoção do que razão. Vamos lá.

Chegar e partir é ser feliz e triste ao mesmo tempo, sem nem entender. Sem precisar entender. Porque, quando a gente sente muito, quando a emoção toma conta do corpo inteiro, ela toma conta da mente também. Não dá pra pensar, a lógica vai embora e o verbo “entender” perde o significado e fica suspenso no ar. Suspenso até que o peito fique mais leve, a respiração mais controlada e o rosto um pouco mais seco e da cor original.

Chegada e partida são duas faces da mesma moeda. Ou talvez a mesma face da mesma moeda. Um é consequência do outro e o outro também é consequência do um. São ambos causa e consequência.

Talvez pareça confuso, mas, se você já se sentiu assim, sabe do que estou falando. E, se você nunca passou por isso, garanto que, no momento em que passar, vai reconhecer o sentimento e vai lembrar dessas linhas. Porque não é fácil falar sobre chegadas e partidas, mas também não é fácil sentir. Apesar de ser um tanto quanto recorrente…

Pensando bem, chegar e partir podem ser ainda mais cotidianos do que você imagina. A gente está o tempo todo se despedindo e o tempo todo se cumprimentando. O dia todo. Quando você acorda, bom dia. Quando já passou do meio-dia, boa tarde. E quando escurece, boa noite. E, olha só, todas essas expressões servem tanto para a chegada quanto para a partida! Não disse que eram a mesma face da mesma moeda?

Por fim, acho que todo sentimento deve ser sentido, assim como todo momento deve ser vivido, no limite da sanidade. Quando a loucura chegar, quando a saudade não mais aguentar, é porque o corpo está pedindo descanso. Então para, respira, conta até dez, até cem, até nunca mais pensar.

E lembre-se, chegar é também partir. E o contrário também é verdadeiro.

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