Bem-vindo à Índia – Um intercâmbio na terra dos Tuk-Tuks

Por Caio Scaranari

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Acordar. Ir trabalhar. Casa. Acordar. Ir trabalhar. Um filme. Dormir. Trabalhar. Bar. Sono. Já fazia um tempo que a rotina não estava me agradando em casa. Pouquíssimas novidades, nada de diferente acontecendo e tudo me deixando sempre no mesmo lugar.

Vi um anúncio de uma feira de intercâmbios e oportunidades para recém-graduados. Resolvi tentar. Algum tempo depois disso, eu estava fazendo as malas para ir morar na Índia por 6 meses, trabalhando em uma agência de publicidade num intercâmbio pela Aiesec.

Cheguei aqui em Jaipur, saí do ônibus e fui recebido por um calor de 44° graus, um trânsito caótico e barulhento, todo mundo me olhando e vários motoristas de tuk-tuk tentando falar comigo numa língua impossível de entender. Ainda tinha a minha doce ilusão que o inglês, sendo uma língua oficial daqui, facilitaria a comunicação com todo mundo. Isso acaba no primeiro Tuk-tuk que você tenta pegar. Só Hindi mesmo.

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Cheguei na minha futura casa e descobri que seria um lugar provisório e que eu ainda iria para uma outra casa mais perto do meu trabalho, alguns dias depois. Ainda bem. Porque lá eu estava morando sozinho, não tinha noção de para onde ir, o que comer e nem o que fazer. Foram dias bem intensos e completamente randômicos tentando encontrar coisas simples em supermercados locais e procurando restaurantes com comida não apimentada. 4 dias depois, eu estava indo para a minha casa permanente e vi tudo o que eu precisava: pessoas. Russas, brasileiras, indianos, polonesas, tunisianos, colombianos e um pique frenético de ir para todos os cantos da cidade todos os dias. Era tudo o que eu precisava.

Todo esse convívio diário ajuda a amenizar o choque cultural aqui. Afinal, não faltam razões para estranhar tudo o que acontece ao seu redor. Só encontrava restaurante vegetariano, não tinha achado nenhum supermercado até então, o clima árido e quente do deserto, uma cultura à minha volta completamente diferente de tudo que eu já vi antes e muita desorganização nas ruas.

Mas se tem um adjetivo que você não pode usar para descrever a Índia é entediante. Tudo aqui é bem frenético, cheio de significados e muita tradição. E não há nada melhor que chegar em casa, abrir uma cerveja e conversar sobre todos os choques de realidade que vemos a cada dia.

O povo indiano é um povo bem acolhedor e simpático. Como eles mesmos se definem: “a people-oriented society”. Não é difícil ver isso. Em qualquer rua que você passa, tem um grupo de motoristas de tuk-tuk sentados conversando. Eles não se importam de estarem sentados no chão, que a rua está cheia de lixo, nem com o calor, eles têm o seu chá (que, por sinal, é bom bagarai) e amigos ou família ao seu redor.

Assim como todo mundo da minha agência, que foram bem acolhedores, me levando para conhecer vários lugares nas minhas primeiras semanas, me introduzindo aos pratos locais, me contando bastante sobre o estilo de vida na Índia e suas tradições, e realmente me ajudando a me adaptar ao país.

Mas, além disso, também é um povo bem tradicional. A maioria dos casamentos por aqui ainda são arranjados e casar “por amor”, como eles dizem, ainda é visto como uma atitude meio rebelde.

A religião aqui é extremamente importante. Ela define muito o jeito como eles vivem, inclusive muitos são vegetarianos por conta do hinduísmo se basear no conceito da não-violência (Ahimsa). Chega ao ponto de alguns não comerem cebola por entender que quando alguém tira uma raiz inteira da terra, está matando a vida ali presente.
A maioria da população é bem religiosa, mas a abordagem de religião deles é um pouco diferente da nossa. Não é algo pregado aos outros. É mais voltado ao desenvolvimento pessoal e a sua espiritualidade, então cada um tem a sua convicção.

Até porque dentro do hinduísmo existem mais de um milhão de Deuses e os adeptos podem escolher seguir o que eles quiserem. A escolha se dá por qual Deus você simpatiza mais e qual irá te ajudar a desenvolver mais a sua espiritualidade. Por isso, quando você vai à algum templo aqui, nunca vê alguém conduzindo uma cerimônia. Aquele é um templo de tal Deus e as pessoas lá se conectam a ele do jeito que acharem apropriado. O que o templo proporciona é a energia do local sagrado.

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Vendo tudo isso em primeira pessoa e tendo tempo para processar o que está acontecendo na sua frente, você começa a entender os costumes deles. Isso não significa que eu defendo o jeito como eles fazem as coisas, mas é a cultura daqui, é assim que as coisas são feitas há muitos anos e é algo muito diferente do que estamos acostumados. E como ignorância e preconceito são um casal apaixonado que vai morrer abraçado, não há melhor jeito de dizer adeus para eles do que viajar, conviver e entender outros povos e culturas.

Com tudo isso, a Índia vai sempre ser um país pronto para te mostrar algo novo a cada esquina, mas a questão é: esteja preparado, nem sempre é algo agradável ou algo que você queria ver. Pode ser um elefante pintado passando do seu lado ou pode ser alguém mijando na rua no meio de todo mundo. Depende do dia.

Felizmente, me deparei com a primeira opção
Felizmente, me deparei com a primeira opção

Toda a experiência de morar aqui é algo bem contrastante com o nosso estilo de vida no Brasil, mas, depois de um tempo morando nessa casa com gente de vários outros cantos do mundo, você aprende que só duas coisas são absolutamente vitais para a sobrevivência do grupo em harmonia: cerveja e papel higiênico.

Por enquanto, está sendo uma viagem de muitas coisas ao mesmo tempo (o que não deixa de ser bem indiano). Desde um começo de dias solitários e madrugadas sem sono, num calor de 44° graus, até meses que passaram muito rápido, numa casa cercado por pessoas que já viraram o meu ponto de segurança e conforto a meio mundo de distância de casa.

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E depois de quase 3 meses morando nesse mundo de trânsito, vacas, comida apimentada, explorando o que as madrugadas indianas têm a oferecer para um grupo de brasileiros, colombianos, russos e eslovacos, tem uma coisa que eu posso afirmar com muita certeza: já faz um bom tempo que eu não sinto tédio.

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