Mãe de viajante – deixar partir, viajar, amar

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Triste mesmo é não deixar partir.  Sorrir junto sem nunca ter deixado ir é prova de egoísmo, de sorriso amarelado. Triste mesmo é fugir do novo, esconder o diferente, pensar assim estar protegendo o que é da gente. Triste mesmo é abrir mão sem nunca ter fechado, privar-se de aromas sem nunca ter cheirado, fugir de um sabor que nunca foi provado.

Acredito que amar é deixar ir. Não há prova maior de amor que deixar partir, que dividir seu pedaço de felicidade com amigos. Com o outro.  Com pouco. Com o mundo. Com tudo.

Quando parti ainda era incompleto. Faltavam-me letras e palavras sufocadas por falta de liberdade e excesso de afeto. Liberdade almejada, expectativa criada, alma lavada. Um mundo girando lá fora e sorrindo pra mim. Enquanto dias de possibilidade intermináveis me aguardavam La fora, minha mãe me esperava aqui dentro.

Coração na mão, repartido em dois: a parte do filho que parte, e a parte do filho que cresce. Criamos os filhos para o mundo. Trocar lágrimas em saguões de aeroportos. Partidas, chegadas, desencontros, tontos. Trocar as últimas palavras no embarque, tomar o último café em Guarulhos, noites em claro pré embarque com malas a fazer, roupas a passar, historias pra contar. Visitas aos consulados, documentos xerocados, vistos tirados, momentos passados.

Não existe riso tão sincero como aquele dos portões de desembarque. Nem abraços tão apertados, ou olhares tão verdadeiros como de uma mãe ao ter seu filho de volta em seus braços. Fica longe o coração, distante a segurança e cresce o medo, talvez. Medo bobo, medo tolo, coisa de quem ama mesmo, mas ama de verdade. Porque quem ama, acredita, confia, viaja junto ou por pensamento. Quem ama não fica triste. Porque triste mesmo é não deixar partir.

Por Lucas Estevam

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