Viagem e tecnologia – Calibrar os olhos e o coração em viagens eletrônicas

Cada viagem funciona para nós, viajantes e apreciadores dos lugares, como uma oportunidade de imersão em “realidades” diferentes. Realidades entre aspas pois não sei ao certo como faço para mensurá-la. as novas tecnologias e propostas de realidade virtual, possibilidades de interação com sistemas informatizados e de georeferenciamento modificam a maneira como nos relacionamos com o “real”. Sempre mediado por algum equipamento, muitas vezes esquecemos de vivenciar os lugares pela necessidade de registra-lo. Não acho que esta relação ocorra na mesma medida com as sensações que experimentamos diariamente assim como em viagens. Embora muitas vezes a ideia de diversão esteja diretamente relacionada aos bares e baladas, tendo a bebida como o principal elemento, ainda penso que os preparativos para viagem, assim como os estranhamentos e desconfortos que sentimos quando já estamos viajando, sejam as grandes riquezas que movem os espíritos andarilhos.
Lembro bem uma das primeiras viagens que fiz de bicicleta. Na verdade, levei a bicicleta de ônibus até a cidade mineira de Diamantina para percorrer pedalando a primeira etapa da “Estrada Real” que vai até a antiga capital mineira Vila Rica, hoje Ouro Preto. A viagem de Campinas-SP até Diamantina-MG foi bastante longa, chegando a quase 12h de duração. Mas toda aquela espera no ônibus foi bastante interessante pois eram os sinais de que a viagem tinha começado e que, as relações que eu estabeleceria com os lugares e comigo mesmo não poderiam ser as mesmas do cotidiano. Aquele foi para mim, o momento de travessia de um portal que me permitia novas experiências. Ao meu lado, uma senhora de aproximadamente 60 anos se sentou e ainda no estado de São Paulo começamos a conversar. Ela também estava indo para Diamantina para percorrer a primeira etapa da Estrada Real (Caminho dos Diamantes) e se encontraria com alguns amigos de outros cantos do Brasil. Todos eles aposentados, se conheciam de momentos que se encontraram viajando pelo mundo. E a viagem que mais os marcou foi para Santiago de Compostela. A conversa estava tão boa que, guardada as proporções, a viagem passou super rápida. E não precisei chegar no destino para me sentir feliz com a viagem.
Já em outra viagem, quando passei pelas cidades do Rio São Francisco, na divisa dos estados de Sergipe e Alagoas, ganhei passaportes para fazer um passeio bastante famoso pelos Cânions de Xingó. Muitas pessoas vão para a divisa dos estados exclusivamente para o passeio mas, a maioria compra pacotes a partir das capitais dos estados, Aracaju e Maceió e passam o dia na última represa dos Rio. Depois de passar por vários procedimentos de embarque nos catamarãs, as pessoas iam se ajeitando procurando o local mais bonito para tirar a tradicional foto dela mesma. O passeio, muito bonito, rasgava as amansadas águas represadas do velho Chico. O monitor da viagem, cumprindo o papel de passar algumas informações aos turistas, precisava adotar a estratégia de primeiro contar sobre alguma formação rochosa ou outro atrativo para ai sim apontar para que lado estava. Depois da indicação do local, uma avalanche de máquinas fotográficas, celulares e tables, portados por seus donos, eram direcionados e disparados para capturar aquela imagem. Eu acho que muitos nem sabiam o que estavam fotografando mas o entusiasmo e o impulso justificavam a foto.
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Esta nossa relação com os equipamentos eletrônicos me parece bastante superficial. Uma tentativa de validação daquilo que está vivendo para garantir que sim estou me divertindo e tenho como provar para todos (só não para mim). Nesta semana um amigo que foi ao show do Ed Veder, vocalista do Pearl Jam, me contou que a organização do evento baniu o uso de celulares para registro do show. Imaginem só isso. A febre do registro através dos telefones móveis chegou a um ponto insuportável. Os show são assistidos através dos inúmeros aparelhos de uso individual.
Mas com toda a mudança de relações que criamos a todo momento, como saber o quanto uma tecnologia ajuda em nossas viagens, altera a maneira autêntica de se viajar negativa ou positivamente? Só acho que não podemos deixar de sentir, perceber e viver os locais por onde passamos.
Viaje…

Por Philipe Branquinho.