Ciclo Tropeiro – O encontro do viajante com os tropeiros

[000724]Sabe quando você se debruça sobre a janela da sala e fica olhando a rua? Os carros passando, as pessoas caminhando em sentidos contrários, às vezes esbarrando aos ombros das outras. Existem aqueles que estão apressados, outros já não mais precisam correr. Alguns meninos carregam consigo a algazarra que pretendem levar à escola e desorientar o já desorientado professor. Não importa muito como é sua rua, provavelmente é diferente da minha e até mesmo do seu vizinho. Mas, aposto que um dia (ou alguns deles), quando se debruçava e fixava o olhar para o nada, lá longe, já imaginou como seria este pedacinho de território antes da cidade se formar em prédios, casas, ruas, asfalto, poste e placas… Imaginava a época dos tropeiros e como eram suas rotinas de viagens. Ah, naquela época, viagem era para pessoas no mínimo muito dispostas. Encarar um caminho desconhecido, sujeito a encontrar algum animal peçonhento ou até mesmo as personagens das fabulosas estórias de onça. Armar acampamento no meio da chuva, economizando os últimos feixes de claridade que conseguem transpor a densa nuvem cinzenta e as largas folhas da mata atlântica. Enquanto alguns fincam as estacas e amarram em árvores as cordas das tendas, outros companheiros tratam de recolher o que acham de galho menos molhados para acender uma fogueira e preparar a refeição para a tropa. Depois daquela trabalheira e a barriga satisfeita, um certo violeiro apanha de seu saco de estopa pendurado na cangalha da mula, a violinha que dará o tom da alegria e anunciará o fim da noite. Momentos de cantoria e diversão sentados ao pé do fogo. Uns contam mentiras, outros só fantasiam, existem àqueles que adaptam suas estórias para facilitar o entendimento dos companheiros. Mas tudo isso, com a melhor das intenções, narrar só aquilo que viram ou viveram.

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IMG_1276Vou dar um dica aqui para facilitar a visualização desta situação, ou melhor, a ambientalização disso tudo. Eu, Philipe, nasci no interior de minas e desde pequeno presenciei o tanger das violas de folia de reis e modas sertaneja. Mas é modão mesmo que cantam as paisagens dos sertões. Vá garimpando algumas músicas de Tonico e Tinoco, Pedro Bento e Zé da Estrada, Pena Branca e Xavantinho, Rolando Boldrin ou do grande mestre Tião Carreiro e seu companheiro Pardinho. Sugiro que desvista sua capa do preconceito e ouça essas “moda”. Ahhh, não tem como não ficar pelo menos curioso com as situações que eles cantam!!!! Experimentem só…
Bem, mas até agora, esse canto reservado para viagem de bicicleta, nem de perto chegou em algum assunto deste tipo. Desculpem, desculpem, não pude resistir mas tive que contar um pouquinho destes acontecimentos que também me inspiraram a pegar estrada montado numa bicicleta! É, eu não tenho cavalo, nem mesmo sei andar à cavalo. Mas gostaria muito de experimentar das estórias contadas pelos tropeiros e viajantes naturalistas que embrenhavam Brasil adentro. A bicicleta me veio a calhar de forma brilhante e perfeitamente adaptada para nossos tempos.
Comecei minha busca por informações sobre trajeto, equipamentos, treinamentos e fiquei maravilhado com a liberdade oferecida por uma viagem de bicicleta. Para viajar de bicicleta você só precisa ter uma bicicleta e vontade de aos poucos, pedalada por pedalada, percorrer seu caminho.

Voltando na nossa memória mais uma vez, sabe quando a gente é pequeno e sonha em ter uma bicicleta? Daí, com essa bicicleta percorrer o mundo? Pois é, ainda bem que esta essência de criança ainda não me abandonou. Agora, eu poderia sim, pegar a bicicleta e viajar.

Sobre equipamento? O básico, o necessário. E se você quiser levar bastante coisa, pode levar, não tem problema. Só não reclame nas subidas! Rsrs… Mesmo pensando no básico, é difícil imaginar todo tipo de situação que a gente se sujeita numa empreitada dessas e o que vamos precisar. Até que iniciamos a viagem e acreditem, precisamos de muito menos do que temos ideia. E aí está a graça da cicloviagem, o improviso, a adaptação, o respeito e entendimento com o lugar que chega, considerando que carrega consigo, sua bagagem cultural distinta.
Sobre treinamento, é bastante recomendável que você tenha um certo costume em pedalar. Não precisa ser um mega atleta, mas precisar aprender a pegar o ritmo de pedalada para seguir grandes distâncias. Como cicloviagem é liberdade, se você se cansar no caminho, é só parar e aproveitar um pouco daquela paisagem “do meio do nada”, num íntimo mergulho com seu próprio Eu. Caso anoiteça, acalme-se lembrem das estórias dos tropeiros? Você pega sua barraca, procure um lugar agradável e que não fique muito visível, deixe aflorar sua sensibilidade para escolher o local, estique sua tenda e boa noite… É sempre bom ter uma reserva de comida para emergência caso você não queira cozinhar no caminho.
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Meu deus, o tempo está fechando, vai chover!!!! Nada melhor que uma chuva quando estamos pedalando. E adivinhem: se molhar, seca! É este o grande segredo. Aproveitar as mínimas oportunidades e presentes que nos aparece pelo caminho.
Tudo isso fui aprendendo em algumas viagens mais curtas que fiz para a Serra da Canastra e Caminho dos Diamantes (estrada Real-MG) para entender se era aquilo mesmo que queria para percorrer as cidades do Rio São Francisco. A cada pedalada que dava, tinha mais certeza que viajar de bicicleta é a melhor coisa que já experimentei. Para minha viagem de 7 meses por território são-franciscano, me preparei por um ano, desde juntar dinheiro, estudar o roteiro, estudar sobre o rio, trancar a faculdade e me lançar na estrada. Agora esta viagem não sai de mim e já não consigo imaginar a locomoção na cidade sem bicicleta! Mesmo com todo o risco que meus companheiros motoristas me oferecem, ainda penso que estou ajudando-os no trânsito.
Na semana que vem, se eu não mudar de ideia e vocês concordarem, vou falar um pouco sobre o caminho. Não necessariamente o caminho do Rio São Francisco mas, a distância entre o início e o final da viagem. Penso que esta é a grande transformação. Não no início nem no final mas, no caminho.
Boa semana, abraços pedalantes.

Philipe Branquinho.
Campinas-SP.

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