Caminho dos Diamantes e Highlander, o Guerreiro Imortal.

Trim-trim… Vamos ‘bicicleandear” mais um pouco!!!!
Na última quarta feira, dia da minha postagem aqui no blog, havia comentado que, se não mudasse de ideia, gostaria de falar um pouco sobre o “caminho”. Caminho que percorremos quando firmamos os pés nos pedais, empunhamos com força o guidão, esticamos o peito contra o vento esperando com firmeza tudo o que nos aguarda pela frente, na empreitada de metros, quilômetros, dias, meses, anos…
post3_3
Calma, calma, calma… não vou me empolgar aqui, filosofando sobre caminhos e sentidos de partida e chegada. Acho muito interessante a questão mas quero aliar o tema com um fato que me aconteceu na viagem. Acho que tá na hora de soltar um pouquinho do que vivi me deslocando pelos cantos em cima de uma bicicleta.
Povo viajante, um dos maiores aprendizados que ganhei viajando e me lançando a saber das formas de vida, formas de fazer e ser das pessoas, foi que não existe coincidência. Não é possível que esta palavra consegue resumir a quantidade de ações que acontecem de forma tão integrada e fazendo tanto sentido num espaço de tempo tão curto. Eu não consigo imaginar que exista algum viajante que não tenha alguma história de possíveis coincidências. Vou contar um causo então, que aconteceu comigo quando viajava pelo Caminho dos Diamantes (Diamantina-MG x Ouro Preto-MG) na Estrada Real em companhia de meu amigo Marlon.
post3_2
Aproveitamos as férias de julho de 2012 para fazer a primeira etapa da Estrada Real, antiga rota de escoamento do ouro e pedras preciosas lavadas a sangue do povo brasileiro e hoje espalhadas pelo mundo.
O inverno em Minas, no alto da Serra do Cipó, esperávamos um certo frio, que foi responsável por ocupar os alforges (mochilas que vão penduradas junto à bicicleta) que levamos. De fato o frio vinha brindar nossa viagem todos os dias mas, apenas nas horas em que o sol não estava mostrando sua majestade. Então, sempre que saíamos para pedalar, logo nas primeiras horas de luz do dia, já reservávamos um espaço para colocar a blusa que, na primeira ou segunda subida (e haja subida nesse caminho), já não era mais necessária.
Eis então que, no caminho entre as cidades de Alvorada de Minas e o distrito da Tapera no 4º dia de viagem, entre subidas e mais subidas, mais empurrando a bicicleta do que de fato pedalando, guardando os respiros e concentrando no empurrar a bicicleta morro acima, ouvindo somente os deslizar das rodas na estrada repleta de cristais de quartzo, uma voz anuncia a presença de uma terceira pessoa. Em meio ao descampado do cerrado, num caminho que liga vilarejos bastante simples, bem no alto de um morro, no final da tarde, não era comum encontrarmos com pessoas.
Entre umas pedras imensas que ficavam no cume do morro, ao lado leste da estrada, tinha um rapaz sentado observando o pôr do sol e nos convidou para assistir ao espetáculo. Começamos a conversar e ele nos contou que sua família é da Tapera mas ele morava em Belo Horizonte e, sempre que estava por ali, vinha assistir a despedida do sol. Falou que naquele dia, já estava de partida mas poderíamos procurar seu irmão no distrito que ele nos hospedaria. O que mais impressionou foi seu nome Highlander!!!!!!!!! É isso mesmo, o nome dele na certidão de nascimento é o mesmo do Guerreiro Imortal! E o cara mais excêntrico que conhecemos na viagem! Falava mais que a boca, sempre com alguma história surpreendente.
post3_4
Nos despedimos e seguimos para seu povoado. O caminho agora era só descida. Com o resto de luz que tínhamos, conseguiríamos chegar antes da noite tomar o céu. Isso se não fosse a sucessão de pneus furados que passou a bicicleta do Marlon. Por causa das várias paradas, sem sucesso, chegamos ao povoado já bem de noite e ai fomos procurar a família do Highlander!!!!!!!!
Não tivemos problemas para encontra-los e nos hospedaram segundo a melhor tradição mineira! Com direito a comida no fogão à lenha, cafezinho e cachaça pra regar as conversas e sempre um quitute para beliscar! Partimos então, depois de conhecer o “munho”, local de produção de fubá que usa como energia, a força da água em um moinho. Os “munhos” são infraestruturas de uso coletivo sempre perto de uma rio ou corredeira. Os grãos dos milhos caem um a um para serem processados entre duas pedras redondas e esfarelarem em forma de fubá!

Tapera de Conceição do Mato dentro - MG

Tapera de Conceição do Mato dentro – MG

Bem, interessante do Highlander, o guerreiro imortal de tapera é que, quando acabamos a viagem e fomos para Belo Horizonte para pegar uma carona com o ônibus da Unicamp que voltaria de um encontro estudantil, pedalando entre a estação de trem e a UFMG, passando entre milhares de carros, ônibus, motos, todos disputando quem chegaria primeiro sabe-se lá onde, uma moto para ao nosso lado, acelerando no ritmo em que pedalávamos. De imediato, levei um susto e, como estava atrás do Marlon, gritei para que ele parasse em um posto de gasolina. Fiquei assustado com o cara da moto que fazia sinal pra gente parar ali mesmo, no meio da rua.
Quando paramos no posto, a moto veio atrás, parando em nossa frente. O motoqueiro, com o capacete, falava alguma coisa que não dava pra entender. Até que ele tirou o capacete e tcharam…. Highlander, o guerreiro imortal. Do alto do morro da Tapera para o centro de BH. Que isso, não acreditamos!!!!! Ai, nós que chegamos sem ter onde ficar na capital mineira, fomos convidados para ficar na casa do grande imortal da Tapera! Rsrs…
Ficamos com ele na sua casa onde a regra era o seguinte: você pode usar o que quiser, mas precisa lavar. Não depois que usar e sim antes. Depois que usar não precisa lavar! É foi bem tenso. Mas a grandiosidade do imortal Highlander superava tudo isso. Ele nos levou para conhecer alguns lugares em BH e foi uma das surpresas mais interessantes deste caminho que percorremos.
Desse jeito, acho tudo muito difícil que seja só coincidência!!!!!
Abraços pedalantes!